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Pesquisa revela prevalência de anúncios promocionais de alimentação não saudável em aplicativo de delivery

Com a pandemia da Covid-19 e o fechamento dos estabelecimentos físicos para a venda de comida pronta para consumo, o consumidor brasileiro passou a usar mais os aplicativos de delivery de refeições e muitos restaurantes migraram para esse tipo de serviço. Os downloads dessas ferramentas aumentaram 15% após a confirmação do primeiro caso da doença no Brasil e, apenas na primeira semana de março de 2020, esse aumento foi de 126%. Porém, essa adaptação dos serviços de alimentação ao meio digital e o maior uso desses aplicativos pelo consumidor apresenta potencial implicação negativa para a saúde e nutrição da população, pelo tipo de refeições e publicidades verificadas nesse ambiente. Neste cenário, identificou-se que os sanduíches e bebidas ultraprocessadas prevaleceram nos anúncios promocionais nesses aplicativos durante a pandemia, enquanto as refeições compostas em menor proporção por alimentos ultraprocessados, como os pratos de refeições tradicionais e as preparações à base de verduras e legumes, foram anunciados em menor frequência. É o que constata o estudo que descreveu pela primeira vez o perfil de anúncios promocionais de refeições em aplicativo de delivery no conjunto das capitais do Brasil, realizado pelas professoras do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG, Paula Martins Horta e Larissa Loures Mendes, e pela nutricionista e mestranda em Nutrição e Saúde pela UFMG, Juliana de Paula Matos Souza.

Alimentos ultraprocessadosA coleta de dados envolveu todos os anúncios promocionais efetuados por restaurantes das 27 capitais do país entre a 13ª e 14ª semana da pandemia da Covid-19, cerca de um mês da identificação do primeiro caso da doença no país, no único aplicativo de delivery de comida disponível em todas as capitais do país no momento da coleta.Foi realizado o registro da presença de marcadores de alimentação predominantemente saudável (água; sucos e vitaminas naturais;pratos de refeição, massas e da culinária internacional; hortaliças e frutas) e de marcadores de alimentação predominantemente não saudável (bebidas ultraprocessadas; produtos de sorveteria e guloseimas; sanduíches; salgados e pizzas).

Dentre os resultados do estudo, notou-se que os anúncios foram realizados de forma similar entre os dias da semana, porém se concentraram no jantar. Verificou-se que 51,1% dos anúncios continham pelo menos um marcador de alimentação não saudável e 29,3% pelo menos um marcador de alimentação saudável.

Dentre os anúncios com presença de pelo menos um marcador de alimentação não saudável, 21,3% eram de sanduíches e 20,6% de bebidas ultraprocessadas. Entre os marcadores de alimentação saudável, 17,8% continham pratos de refeição, massas ou da culinária internacional e frequência inferior a 5% foram verificadas para os demais subgrupos desses marcadores.

Ainda de acordo com a pesquisa, os anúncios contendo marcadores de alimentação saudável foram mais frequentes nos dias de semana (34,2%) e no almoço (47,5%).Já os anúncios contendo marcadores de alimentação não saudável, foram mais comuns no fim de semana (54,7%) e no jantar (63,3%). As bebidas ultraprocessadas, os sanduíches e as pizzas foram mais anunciados no jantar em relação ao almoço.

Estratégias de marketing
As estratégias de marketing mais comuns nos anúncios foram: descontos no preço (91,7%) e uso de fotos (94,0%). A entrega grátis foi verificada em 45,7% das promoções. A existência de algum apelo de marketing foi identificada em 28,1% dos anúncios. “O uso de estratégias de marketing se diferenciou entre os dias da semana e tipos de refeições e foi notada a maior participação de entrega grátis, combos e apelo de preço para o período do jantar e fim de semana, quando ocorre a maior oferta de marcadores não saudáveis, e a maior participação de uso de fotos e apelos de saúde no período do almoço, que é o período de maior oferta de marcadores saudáveis”, explica a professora Paula Horta.

Além disso, foram observadas diferenças entre o uso de estratégias de marketing e as regiões do Brasil. As estratégias de entrega grátis e de desconto foram mais frequentes nas regiões Sudeste e Sul (56,5% e 95,8%, respectivamente) em comparação às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste (39,5% e 89,5%, respectivamente). Já a presença de apelo de preço foi maior nos anúncios nas capitais do Sudeste e Sul (18,4%)em relação aoNorte, Nordeste, Centro-Oeste (14,1%).

Apesar desses resultados evidenciarem a promoção de uma alimentação predominantemente não saudável em aplicativos de delivery de comida no Brasil, a professora reconhece a importância desse tipo de tecnologia para a alimentação dos brasileiros:“Cabe destacar o reconhecimento de que os aplicativos de delivery de comida também podem atuar como uma importante ferramenta para a garantia de acesso à alimentação durante a pandemia da Covid-19 e, conforme apontado por especialistas em sistemas alimentares, o protagonismo do uso dos meios digitais para aquisição de alimentos permanecerá após a pandemia como medida de segurança para redução de todos os tipos de transmissão de doenças virais em locais onde a aglomeração acontece. Deste modo, este estudo considera primordial buscar formas de melhoria da qualidade das refeições ofertadas e não a interrupção deste tipo de serviço”, ressalta.

Assim, a pesquisadora destaca que os aplicativos de entrega de alimentos podem ser aprimorados com a inclusão da lista de ingredientes e informação nutricional das refeições anunciadas, além de serem regulados por legislação específica alinhada às evidências atuais relacionadas ao impacto do marketing de alimentos para a saúde da população. “Neste contexto, o presente estudo contribui trazendo uma descrição do cenário de marketing de alimentos em um aplicativo de delivery noBrasil durante a pandemia da Covid-19 e aponta possibilidades de regulação para que este ambiente alimentar digital seja mais saudável para a população durante e após este quadro sanitário”, conclui.